segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Biografia



Olho o rio que leva as almas,
rio sem rumor, pele prata,
na noite de céu gelado.
Olho o ir e o vir de vidas
murmurantes sem aviso
das eclusas da memória.
Nesse porto em crepúsculo,
despertos num dia-a-dia,
mercadejando sua dor,
vultos saem do cós do tempo.
Lá está minha mãe: sua vida
é navegar pelo sal.
Alinhava um pano branco,
abotoando-o de lágrimas.
Bem perto (mas escondido)
vejo meu pai como ator
interpretando o papel
de amor, traição e destino.
Está vivo em meio ao Letes,
de onde nunca vai voltar.
Põe-se a cuidar do caçula.
Amassa espinhas de peixe
com as mãos sujas de graxa,
para salvar o menino
de armadilhas da fome
(de dor fixa na garganta).
Seu trabalho na oficina,
é ajudar o menino
e seu martelo de plástico.
Forja em ferro frio o ser,
busca blindagem de aço.
Sempre tem as mãos de graxa
de consertar rodas tortas
de carroças que quebraram.
Minha mãe vive a coser.
Cose sua carne com agulhas,
remenda trapos de vida
e diz que dói ser mulher.
Com essa dor costurada
vela o menino que brinca
com seus brinquedos quebrados:
derrama sobre os encaixes
cera quente de ódio e amor,
que não solda nem desata.
Vejo claramente o sonho:
um barco velho flanando
pelo mar que é cemitério.
Capitão de um barco preso
à margem, vivo buscando
um lugar para o sol e a lua.

Um comentário:

  1. Parabens pelo texto , muito bonito e inteligente.
    Billy

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